É muito comum ouvir frases como “isso é da idade” quando alguém esquece onde colocou as chaves ou demora para lembrar o nome de uma pessoa. Mas será que todo esquecimento faz parte do envelhecimento normal?
A resposta é não. Embora algumas mudanças na memória sejam esperadas com o passar dos anos, existem situações que merecem atenção e podem indicar um problema de saúde que precisa ser investigado.
Neste artigo, vamos explicar de forma simples como diferenciar os esquecimentos normais daqueles que podem representar um sinal de alerta para a saúde cerebral.
O que acontece com a memória ao envelhecer?
Assim como a visão, a audição e a força muscular podem sofrer pequenas mudanças ao longo da vida, o cérebro também passa por um processo natural de envelhecimento.
Isso significa que algumas pessoas podem apresentar pequenos lapsos, tais como:
- Demorar um pouco mais para lembrar um nome ou uma palavra específica;
- Precisar de mais tempo para aprender uma nova habilidade;
- Esquecer temporariamente onde guardaram um objeto, mas conseguir encontrá-lo depois;
- Precisar fazer listas de compras ou usar lembretes com mais frequência.
Essas alterações costumam ser leves e não impedem a pessoa de manter sua independência. A pessoa idosa continua administrando suas contas, dirigindo, fazendo compras, utilizando o celular e resolvendo os problemas do dia a dia normalmente.
Quando o esquecimento deixa de ser normal?
O principal sinal de alerta não é simplesmente esquecer alguma coisa ocasionalmente, mas sim esquecer de forma repetitiva a ponto de atrapalhar as atividades diárias.
Alguns exemplos de sinais de alerta que merecem uma avaliação médica especializada:
- Fazer a mesma pergunta várias vezes em um intervalo de poucos minutos;
- Esquecer acontecimentos e fatos importantes que ocorreram recentemente;
- Perder-se em caminhos ou locais previamente conhecidos;
- Esquecer como utilizar aparelhos eletrodomésticos que sempre fizeram parte da rotina;
- Esquecer compromissos importantes mesmo após terem sido lembrados por familiares;
- Apresentar dificuldade frequente para administrar dinheiro, troco ou pagar contas;
- Deixar panelas no fogo aceso ou esquecer portas e janelas abertas com frequência.
Nessas situações, o problema pode ser mais sério do que o envelhecimento saudável e deve ser investigado o quanto antes.
Nem todo problema de memória é Doença de Alzheimer
Quando alguém começa a apresentar falhas de memória frequentes, é natural que a família pense imediatamente na Doença de Alzheimer. No entanto, essa é apenas uma das possíveis causas.
Existem diversas condições de saúde que podem prejudicar a cognição, sendo que muitas delas são reversíveis e tratáveis, como:
- Quadros de depressão e ansiedade;
- Distúrbios e privação do sono;
- Deficiência de vitamina B12 no organismo;
- Alterações no funcionamento da tireoide;
- Efeitos colaterais do uso de alguns medicamentos;
- Consumo excessivo de bebidas alcoólicas;
- Infecções sistêmicas ou urinárias;
- Alterações metabólicas e renais.
Por isso, nunca é recomendado concluir sozinho que um familiar tem Alzheimer apenas porque está esquecendo as coisas com mais frequência.
Como identificar os sinais de alerta na rotina?
Além da memória, é fundamental observar se houve mudanças em outras funções cognitivas e no comportamento do idoso.
Algumas perguntas simples ajudam nessa reflexão familiar:
- A pessoa continua conseguindo cuidar das próprias finanças e compras?
- Continua tomando corretamente os seus medicamentos nos horários certos?
- Mantém uma boa rotina de higiene pessoal de forma autônoma?
- Consegue preparar suas próprias refeições com segurança?
- Tem apresentado dificuldades para encontrar palavras simples durante conversas?
- Está mais desorientada em relação ao tempo, dia da semana ou local onde está?
- Apresentou uma mudança significativa de personalidade?
- Demonstra comportamento mais desconfiado, irritado ou apático sem motivo aparente?
Quando várias dessas alterações aparecem associadas, a avaliação médica torna-se ainda mais urgente.
O que é o Comprometimento Cognitivo Leve (CCL)?
Existe uma condição intermediária entre o envelhecimento normal e a demência chamada Comprometimento Cognitivo Leve (CCL).
Nessa situação, a pessoa percebe que sua memória está pior do que antes, e os testes cognitivos clínicos também demonstram essa alteração. No entanto, ela ainda consegue manter sua independência para realizar a maioria das atividades do dia a dia.
Nem todas as pessoas diagnosticadas com CCL desenvolverão uma demência no futuro, mas elas precisam de acompanhamento médico periódico, pois apresentam um risco maior de evolução ao longo dos anos. O diagnóstico precoce permite monitorar esse quadro e adotar estratégias para proteger a saúde cerebral.
Quanto mais cedo investigar a perda de memória, melhor
Muitas famílias esperam anos antes de procurar ajuda médica porque acreditam erroneamente que a perda de memória “é apenas uma consequência natural da idade”. Essa demora pode fazer com que doenças potencialmente tratáveis deixem de ser identificadas no início.
Quanto mais cedo ocorre a consulta e a avaliação geriátrica, maiores são as chances de:
- Identificar e tratar causas reversíveis da perda de memória;
- Iniciar tratamentos específicos nos estágios iniciais, quando indicados;
- Controlar fatores de risco vasculares, como pressão alta, diabetes e colesterol;
- Orientar os familiares e cuidadores sobre o manejo adequado da rotina;
- Planejar intervenções para preservar a autonomia e a qualidade de vida pelo maior tempo possível.
Como o médico geriatra pode ajudar?
O médico geriatra é o especialista capacitado para realizar uma avaliação global da saúde da pessoa idosa, investigando a memória em conjunto com todo o organismo.
Durante a consulta geriátrica, são analisados pontos fundamentais como:
- O histórico completo e detalhado do aparecimento dos esquecimentos;
- As doenças pré-existentes e o histórico familiar;
- A lista completa de medicamentos em uso regular;
- O estado de humor, sintomas de ansiedade e sintomas depressivos;
- A qualidade do sono e a presença de apneia;
- O desempenho da memória e de outras funções do cérebro;
- A capacidade funcional para realizar as tarefas do cotidiano.
Quando necessário, o geriatra pode solicitar exames laboratoriais, exames de imagem do cérebro e encaminhar para uma avaliação neuropsicológica detalhada a fim de esclarecer o diagnóstico.
É possível proteger a saúde da memória?
Embora não exista uma fórmula mágica para prevenir todas as doenças neurodegenerativas, a adoção de hábitos saudáveis ajuda a manter a reserva cognitiva por mais tempo.
Entre as principais recomendações para a saúde cerebral estão:
- Manter o controle rigoroso da pressão arterial, do diabetes e do colesterol;
- Praticar atividades físicas regularmente;
- Garantir um sono reparador e de qualidade;
- Adotar uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes;
- Permanecer socialmente ativo e em contato com amigos e familiares;
- Estimular o cérebro através da leitura, estudos e novas aprendizagens;
- Tratar perdas de audição e visão, que isolam o cérebro de estímulos;
- Evitar o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
Quando procurar ajuda médica?
Se você ou algum familiar percebeu que os esquecimentos estão se tornando mais frequentes, estão piorando com o passar do tempo ou já começam a interferir na autonomia do dia a dia, vale a pena agendar uma consulta.
Na maioria das vezes, o problema não significa necessariamente Doença de Alzheimer. Entretanto, somente uma avaliação médica adequada pode diferenciar o envelhecimento natural de condições que exigem tratamento.
Lembre-se: cuidar da memória é preservar a sua qualidade de vida, sua autonomia e seu bem-estar ao longo do envelhecimento.
Dra. Francisca Magalhães Scoralick
Médica Geriatra
CRM 18601 | RQE 10551